Crônicas do Isolamento -- E daí?

Um casal, duas crianças. Eles, de mãos dadas, a pé; os pequenos na frente, cada um na sua bicicleta. Os quatro mascarados. Os quatro no calçadão, sem necessidade.

Quadra de basquete do Aterro do Flamengo. Dois jovens. Sem máscara. Sem necessidade.
No entorno, trabalhadores da Comlurb. Eles, essenciais; Os 'atletas', irresponsáveis.

Uma profissional que, eu imagino, seja da área médica: coberta com macacão, rosto protegido com máscara. Saindo de um prédio, deve ter ido prestar algum atendimento domiciliar, levando conforto e cuidado a quem precisa. Ela, correta. Ela, essencial. Os outros, circulando a passeio e sem se preocupar com o próximo, egoístas.

A categoria dos egoístas anda crescendo. Me entristece um tanto perceber essa verdade.
Eu também adoraria andar livremente em um dia de sol, como se fosse só mais um dia comum.
Só que não é.
Quando o comum é o noticiário sangrando pela tragédia que se espalhou no mundo, ver o egoísmo enraizado dá um aperto enorme no peito.

Hoje, dia de ter que sair, aproveitamos para dar uma volta pela cidade como da outra vez. Respirar um pouco fora de casa, mesmo presos no carro. De novo, me emocionei. Um misto de comoção pela situação da pandemia, de decepção por ver tanta gente individualista no caminho, pavor por ter um presidente que desdenha dos cidadãos do seu país enquanto soma os números da tabela estatística dos que se foram, medo por não saber o que ainda deve vir pela frente, ansiedade por não ser capaz de prever um "até quando", alívio e gratidão por ter minha família e meus amigos bem.

Passando em frente à praia, a lágrima escorreu com gosto de mar, numa vontade imensa de lavar a alma no azul infinito.

Mas, e daí?
E daí que eu pense e que eu sinta e que eu chore e que eu tenha medo e que eu respire o alívio dos meus? E daí que eu esteja cansada com a maratona de dar banho nas compras e colocar a máscara e passar álcool 70 e lavar as mãos por 20 segundos e cuidar das minhas glicemias o tempo todo, todo dia?
E daí?

Se para toda regra existe uma exceção, as exceções - nesse caso - são as mais expostas.
Onde a saúde está em jogo e a vida de cada ser humano está em risco, para cada irresponsável que se acha mais merecedor do que o resto da humanidade e por isso ficam soltos pela rua, aqueles que prestam serviços essenciais, aqueles profissionais da saúde, os que trabalham para fazer o alimento chegar às nossas casas, os que cuidam da segurança e da limpeza das cidades e das pessoasesses seguem se expondo mais do que deveriam.
Quando a vontade de um só prevalece, a iresponsabilidade desse um tem um efeito devastador. 

O problema é que o vírus não se agarra só nos irresponsáveis. O vírus não sabe identificar.
Ah, e para os irresponsáveis, vale lembrar: o vírus é invisível, vocês também não sabem como desviar dele, táoquei?

Sigo buscando manter a calma.
Cuidando do sono, do corpo, da doçura, da insulina, da casa.
Me mantendo sã alternando trabalho, música, riso, série, filme, soneca, vinho, livro, rede, café, pão na chapa e até chá da tarde.
Sigo agradecendo e rezando pelos meus, pelo mundo, pela fortaleza que é esse time da linha de frente.
Quarentena, semana 7, dia 46.
Que meu otimismo não seja pisoteado pela dura realidade.
Que a compaixão e a solidariedade continuem me guiando e me colocando pelo bem do coletivo.


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