Onze anos bons...

Ainda lembro com absoluta clareza do dia e do momento do meu diagnóstico. Fui para a consulta sem nem imaginar o que me esperava.
- Nossa, mas com a glicemia de jejum em 330mg/dL você nem desconfiava?
Não.

Na minha cabeça, era algo passageiro, causado pela correria da época. Trabalhava sei lá quantas horas por dia, entre Rio, Maranhão e Tocantins, voando de um lado para outro sem parar. Não me alimentava da melhor maneira e descanso era um luxo só para os finais de semana. Com essa rotina louca, claro que o corpo ia se desorganizar. Então, esse exame esquisito era o sinal: bastava um cuidado e uns ajustes aqui e ali e tudo voltaria para o seu devido lugar...

Claro que não foi isso que aconteceu e eu fiquei em choque.
- Mas eu nem como doce.
- Mas eu como comida, arroz e feijão!
- Mas eu nem tô gordinha.

Um monte de argumentos que, aquela hora, eu ainda não sabia que não significavam nada em relação ao diabetes tipo 1.

Hoje eu sei. Eu aprendi!
Na verdade, eu busquei aprender, fui atrás de respostas - nem todas eu tenho - e sigo firme na decisao de fazer funcionar esse combinado que a vida jogou no meu colo: uma doença autoimune sem cura (pelo menos por enquanto).

Desse dia D, outra coisa me marcou: a decisão de mergulhar de cabeça no meu tratamento. Se eu tinha uma opção ao meu alcance, era nela que eu ia me agarrar!!

Asism tem sido ao longo dos meus onze anos de diabetes.
Uns dias são melhores, outros piores; os erros e os acertos se esbarram e, na média, o aprendizado e o conhecimento sobre a condição é que me garantem o respiro para encarar glicemias e aplicações de insulina.

Junto com tudo isso, um fato maior me move: apoio e mãos dadas das minhas pessoas. Família, amigos, meu amor, minha Super endócrino, minha gente. Minha gente que jamais me deixou sozinha na doçura dos dias.
O dito lá nos primeiros permanece: "se você tem diabetes e nós somos 20, então somos 20 com diabetes". (obrigada, Magrelim!)

No caminho do DM1, me vi parceira, aluna, jornalista, dona de revista, autora de livro, cúmplice.
"Se o escritor fosse um anjo, o abismo que o separa de nós seria tão grande que seu texto não se aproximaria o suficiente para nos tocar. Mas como ele está aqui, a nosso lado, enterrado até o pescoço com lama e sujeira, é ele que, mais do que qualquer outro, pode partilhar conosco tudo que se passa em sua mente, nas áreas iluminadas e especialmente nos cantos escuros". {Sete Anos Bons / Etgar Keret}

Não sei se sou escritora. Me dizem assim e eu gosto, de verdade (mas conheço tantos tão incríveis e potentes, que as vezes acho uma petulância me classificar como tal). Em contrapartida, o título de diabética não me incomoda. Não é o que me define como um todo na vida, mas de fato não é um incômodo ser apontada como tal. Sou sim.
Há onze anos contados deste dia, sou sim.

Sou pessoa com diabetes tipo 1, pessoa que ama estar com os seus, pessoa que se joga no carnaval, pessoa que encara os contratos e os projetos de engenharia de cabeça erguida, pessoa que curte preguiça de sofá com filme e vinho, pessoa que vai da salada à pizza, pessoa que quer dividir a vivência e ajudar nessa longa e incansável missão de fazer acreditar que é possível viver bem com o diabetes, pessoa que quer seguir em frente na luta por um diabetes acessível e que, de verdade, não seja uma sentença.

Até aqui, são onze anos bons.
Que assim seja.
Que assim seja na doçura e em tudo mais.
{Ilustração: Manka Kasha}

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