Crônicas do Isolamento -- Do lado de lá do portão...

Este foi um final de semana de diferentes emoções. 
Depois de quatro meses dentro do meu quadrado, saí. Uma mistura de sensações: de um lado, a alegria por poder respirar do lado de lá da minha janela; do outro, a agonia em perceber que, por um bom tempo, máscara e distância vão ser o combo desse tal novo normal.

Sábado decidimos dar uma volta de bike. Rafa pilotando, eu na carona. Seguimos para o Aterro do Flamengo. Caminhei por um tempo nos trechos mais vazios, só não tive coragem de andar encarando os espaços cheios. Gente curtindo sol na grama longe dos outros, gente aglomerada no bar, gente fazendo exercício com o cuidado em se manter longe e protegido pela máscara, gente que virou atleta de ocasião sem máscara e sem fôlego... Gente, muita gente! 
Eu vinha acompanhando pelas fotos nos jornais entre uma liberação e outra do prefeito que a praias, os restaurantes e os espaços estavam cheios. Ver a olho nu que a gente está numa cidade que não tem controle, não tem direção e não tem protocolo me fez realizar que isso tudo pode estar longe de acabar. 
Cabe à gente se encaixar e se proteger do jeito que dá.

De qualquer forma, estar do lado de fora em um dia de sol e céu azul foi bom. Não de todo tranquilo - ficava calculando mentalmente a distância entre os outros seres humanos e a nossa bike, olhando o povo que vinha sem máscara e me desviando rapidamente... Só não me senti nadinha confortável de máscara por esse tempinho maior (ficamos quase três horas ao ar livre). Até então, o uso da máscara era bem pontual e rápido: ir até a portaria pegar as compras que chegam do mercado, sair para tirar o lixo... Já por esse tempo todo, ter que caminhar usando a máscara sem poder tirar foi chato e incômodo. A proteção que ela traz também sufoca. Não é confortável, mas como se diz por aí, é o que tem para hoje - e amanhã, e depois, e depois de novo, e enquanto não tiver conscientização e vacina.

E se foi desconfortável para mim, que tinha saído apenas para dar um respiro desses dias todos de quarentena, imagina para os profissionais dos serviços essenciais que precisam estar lá na linha de frente e passam cerca de 8h, 10h com a máscara direto? 
Por isso é que, por aqui, vamos seguindo no isolamento. Se isso é o que me cabe para proteger de alguma forma quem, por profissão e dedicação, não pode se isolar, vou continuar fazendo a minha parte!
 
Claro que a minha vontade - por várias vezes! - foi de descer da bike, me jogar na grama, ir encostando até em poste! Haja calma e razão!! Me mantive firme e contida.
No balanço dessa conta com mil variáveis, valeu a pena.
De volta em casa, banho, almocinho e descanso - para o corpo e a mente.
Sábado passou e chegou domingo: de preguiça, de feijoada delícia encomendada com a amiga quituteira, de livro e de sentir o coração na boca com a passada rápida dos amigos-família "pacêros" que a vida carnavalesca me deu de presente. Eu precisava pegar uma encomenda com eles e eles, aproveitando que iam sair de carro, decidiram passar aqui para me entregar. Desci repetindo o mantra 'não pode abraçar' mil vezes na minha cabeça. Que loucura isso! Uma vontade tão grande de chegar chegando. Nosso normal é assim. Chegou no ensaio? Abraça. Chegou no bar? Abraça. Foi na casa dos amigos? Abraça. Esbarrou com eles pela rua? Abraça. Como faz?
Não abraça. 

Foram alguns minutos no portão do prédio conversando, olhando no olho. Foram alguns segundos no elevador, na volta, com os olhinhos vazando. 


Que momento louco estamos vivendo! 

Haja insulina e monitoramento e contagem de carboidratos!!! 

Um olho na pandemia e outro na doçura, cada qual com seus devidos cuidados.


 

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