Crônicas do Isolamento -- Da insulina ao café!

Na minha rotina de dias úteis antes de pandemia e quarentena, as atividades fluíam de uma maneira mais ou menos padrão, bem organizada.

Despertador, banho, café - na maioria das vezes, já pelo caminho, metrô, uma caminhada até a estação das barcas e aqueles 20 minutos de tranquilidade atravessando a baía. Como o escritório fica em Niterói, me dava ao luxo de ter esse tempinho navegando. Um cochilo, uma leitura, um email... essa travessia dá tempo para fazer muitas coisas ou até para não fazer nada e só relaxar.

Pensar na vida, na escrita, no cinema. Na reunião, no contrato, nas glicemias... 
Aliás, nesse tempinho dava até para aplicar a insulina, quando o despertador eventualmente era deixado de lado e eu saía correndo de casa, tentando recuperar o atraso!

Agora, em época de quarentena, estou com saudade até de correr pela Praça XV, quando via o sinal da catraca das barcas piscando. Aquele monte de xis vermelho gritando para mim que a barca ia sair era o maior fator motivador! A preguiça da manhã ia embora na marra!! 

Trabalhar em casa tem sim suas vantagens, não posso dizer que não gosto. 
Vejo bastante vantagem em poder acordar com mais calma, começar o dia mais devagar, entre uma reunião e outra levantar e fazer um café fresquinho, almoçar assistindo a mais um capítulo da série escolhida, encerrar o expediente de trabalho e já estar em casa... 

Outra vantagem é ter meu kit de sobrevivência sempre à mão. 
Claro que, no dia a dia às vezes corrido, teve glicosímetro esquecido em casa, insulina que ficou em cima da mesa da cozinha. Aí era uma confusão até conseguir parar em uma farmácia ou pedir para entregar no trabalho...

Uma coisa que mudou foi o horário da dose de insulina basal diária. 
Sempre apliquei de manhã, mas para evitar carregar mais uma insulina por aí, antes de sair de casa já aplicava. Então, no máximo às 07:30h já tinha cumprido essa tarefa. 
Atualmente, acordando mais tarde, costumo aplicar entre 09h e 10h. 

- Mas pode mudar o horário assim?
- Depende!

Explico...
No meu caso, essa variação não tem um impacto grande. 
Eu uso uma insulina de ação lenta - a Tresiba - que tem tempo de ação entre 24h e 42h. Sendo assim, uma ou duas horas de diferença entre os horários de aplicação não trazem risco e nem geram prejuízo no meu controle de glicemia. 

Nessa rotina redesenhada, isso foi outra coisa que teve uma melhora: meu controle glicêmico. 
Se antes esquecia de dar aquela olhadinha na doçura por conta de uma reunião, um telefonema prolongado, o glicosímetro esquecido na mesa enquanto ia resolver um assunto em outro andar,  - a hora passava e eu nem percebia! - agora meço a qualquer tempo. 
Quando acordo, no meio da manhã, antes do almoço, depois, na hora do lanche - na hora que bate a fome sem hora também!!, antes do jantar, antes de dormir... Com os altos e baixos do momento, ficar de olho na doçura é a melhor forma de me proteger, não tenho dúvida.

Isolamento cansa. 
Quarentena testa a paciência. 
Não saber até quando vamos caminhar assim parece deixar tudo meio em suspenso... 
Mas ainda não tem vacina, ainda não tem previsão, ainda tem que ficar em casa e, principalmente, ainda tem muita conscientização de que essa é a necessidade do momento.
Vai passar. Até lá, vamos em frente, buscando equilibrar trabalho e calmaria. 
Um dia de cada vez, com fé, insulina e (muito) café. 





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