Crônicas do Isolamento - Futuro do Presente

"O futuro do presente do indicativo é utilizado para indicar um fato a ocorrer num momento seguido da ação. O verbo remeterá a um fato que irá acontecer posterior ao discurso retratado. Esse tempo verbal é comumente utilizado para designar uma incerteza do agente ou ainda uma ordem do mesmo". 

Ou, uma definição atualizada que reflete o momento atual, pode também significar quarentena. 
Quarentena é espera pautada nisso tudo aí: incerteza; o que vai acontecer depois do fato; o fato a ocorrer no momento seguido da ação.

Semana 16. Dia 112.
Já se vão quase 4 meses em modo de espera.  

Por aqui, variamos o humor, o espaço de trabalho e o lugar dos móveis na sala. 
Variamos o cardápio e o mercado.
Só não variamos as notícias: os números continuam subindo. 
Novos casos, muitas perdas, mais esgotamento - do sistema e das pessoas. 

Assisto ao jornal para me informar ou me alieno para não pirar?
De uns tempos para cá, voltei a me ligar no que é reportado. Não só nos registros - absurdos! - da pandemia no Brasil, mas também nos que tecem a política desgovernada desse país.
A sensação de impotência e de que somos uma nação falida e falhada continua. Só que a verdade está aí e não posso ficar escondida atrás dela.

Essa verdade suja é o que tem para o momento. 
E saber disso ainda dói.

Me pego em casa, apesar de estímulos dos nossos representantes oficiais endossando a reabertura de restaurantes, shoppings, salões de beleza... 
Prefiro assim, me protejo pela minha condição de diabética e, portanto, grupo de risco, e pelos que são essenciais e precisam realmente estar na rua.

Acho que não alcancei a fórmula ideal entre a rotina organizada e o tempo de ócio que deveria encaixar nos meus dias. Entre tentativa e erro, a meta é buscar o que pode ser melhor para mim e para os que estão juntos comigo. 
A sorte grande é exatamente essa: estar junto. 

Apesar de estar por todo esse período sem ver minha família e meus amigos e sentindo uma falta enorme desse calor e desses abraços, agradeço por não estar sozinha. Ter amor e afeto em meio ao isolamento faz toda a diferença! 
Mais: ter a chance de trabalhar remotamente, sem precisar me expor aos perigos do vírus e dessa gente estúpida que entende flexibilização como desbunde. 

Distanciamento é primeira ordem. Por amor. Por valor. 
E, tal como lá no começo da pandemia, por medo também. Diabetes tipo 1, doença autoimune, grupo de risco... me lembro disso todos os dias! Prefiro não arriscar, não estou querendo pagar para ver.

Enquanto lá fora "os bares estão cheios de almas tão vazias", como Criolo escreveu na canção, aqui dentro eu sigo na busca por cheiros: do hidratante nas mãos, da pizza no forno, do amaciante que vem das roupas no varal. Se é o sintoma retratado por tantos, não custa dar aquela conferida... 

O gráfico do Libre também continua como parâmetro máximo para me saber bem: a doçura é acompanhada de perto quando eu acordo, depois do café da manhã, antes do almoço, no meio da tarde, no jantar, na hora de ir dormir... Exagero?? Sei lá. Se for, tudo bem. Peco pelo excesso sem nenhuma vergonha. Tenho certeza que se esse corona esquisito aparecer, a minha glicemia vai gritar antes de qualquer teste!

O futuro segue meio embaçado, mas vamos em frente. 
Sem qualquer medo de ser clichê, sei que cabe a nós, individualmente e como sociedade, cuidar do presente para tentar garantir um amanhã - em um mundo pós-pandemia - melhor. 

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