Da marca na pele…

Quando era pequena, um dos desenhos que eu mais gostava de fazer era a rosa dos ventos. Lembro da minha professora de geografia reproduzindo aquele desenho no quadro da escola e do quanto eu achava incrível aquela simbologia que representava o mundo. O movimento de ir e vir mas tendo sempre uma direção indicada. 

Lá pelos meus trinta, deicidi que queria marcar na pele uma rosa dos ventos. Simples, sem muita firula. Os pontos caredais indicados, o Norte marcado.
Em volta dela, o uma borboleta e um caminho traçado. 

Tatuagem é aquela história: depois da primeira, o gostinho de quero mais fica!
Essa foi a minha segunda...

A primeira, uma rosa - a flor - aberta desenhada no meu ombro, era para marcar a evolução ~ dos sentidos, dos sentimentos ~ com o passar do tempo.

Os anos passam e as tatuagens permanecem. 
Mas da mesma forma que o corpo, as tatuagens vão se modificando.
O traço deixa de ser tão delicado, as cores ficam menos visíveis.
E, da mesma forma como damos movimento ao corpo para que se mantenha ativo, podemos dar novas cores às tattoos.
E assim aconteceu a transformação.

A minha rosa dos ventos andava abatida, pálida.
A borboleta já parecia sem força, sem vontade de voar.
Há tempos eu vinha com vontade de mexer nela. Marquei para o início do ano passado e com a pandemia, desmarquei.
Fiquei em modo de espera.

Tomei a primeira dose da vacina, a segunda...
Bati um papo com a minha endócrino na época para saber se ela me dava o aval, com base nos exames apresentados (sim, estava tudo ok!), e conversei com a tatuadora para ver se podíamos reagendar. 

Como ela também já estava imunizada com as duas doses e estava atendendo com capacidade reduzida, decidi que era chegada a hora. 

Eu já tinha passado para ela a ideia da nova identidade que eu queria na rosa dos ventos. 
Ela executou com perfeição! 
Um beija-flor, com toda a representatividade que ele tem (sabiam que o sistema endócrino dele é igual ao nosso e se ele ficar muito tempo sem comer, pode ter hipoglicemia? já falei um pouco mais sobre isso aqui). O meu rumo pelos quatro pontos cardeais, mantendo o Norte ali, firme, como base. Desta vez, sem rota traçada.

Livre para descobrir. 
Livre para os novos voos. 

A glicemia se comportou muito bem, obrigada, durante todo o processo de transformação.
E não foi sorte, foi planejamento. 

Evitei ingerir alimentos muito gordurosos nos dias que antecederam a tatuagem, mantive o monitoramento da doçura ainda mais frequente e comi antes de chegar no estúdio para evitar uma hipoglicemia enquanto estava refazendo a tatuagem. 
Não sabia quanto tempo ia levar até terminar e quanta dor eu ia sentir, então precaução e cuidado foram os aliados. 

As minhas duas primeiras tatuagens eu fiz ainda sem o diabetes, nem imaginava o que estava por vir.
Pós diagnóstico, o mito de que pessoas diabéticas não poderiam fazer tatuagem apareceu. Com informação, ele sumiu! 

Desde que estejamos com a glicemia controladinha, a tatuagem não só é permitida como pode ser uma aliada.
Assim eu me vi envolvida em uma campanha nacional, em 2014, e fiz a minha terceira tatuagem, dessa vez para registrar o diabetes tipo 1 que me marcava tanto quanto aquela tinta na minha pele. 
Foi especial! Uma honra e uma emoção enormes em poder participar de uma ação para esclarecer e levar educação em saúde pelo Brasil. 

Fico aqui agora, curtindo o voo do meu beija-flor e já pensando nos próximos 'rabiscos' que quero fazer...





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

É preciso estar atento e forte!

Crônicas do Isolamento -- A vida de viés...

Crônicas do Isolamento -- Para todo mal, a cura.