Ah, bruta flor do querer...

Meu diagnóstico veio num susto. Ao contrário da grande maioria, eu não cheguei a ser hospitalizada e não passei mal a ponto de identificar que havia algo acontecendo. Não sabia exatamente o que era o diabetes tipo 1 e não entendia como aquilo podia estar acontecendo comigo. Na verdade, minha falta de conhecimento ia além: eu nem sabia que tinha mais de um tipo de diabetes.

Diabetes, para mim, era causada porque havia um alto consumo de açúcar e gordura, a falta de atividades físicas na rotina e - o principal fator causador - era coisa que acontecia só quando já tinha alguém na família que já tinha diabetes. Aí aprendi que diabetes tipo 1 é doença autoimune, na qual as células beta do pâncreas deixam de produzir insulina e que diabetes tipo 2 pode ter fator hereditário relacionado, além de estar ligado sim a fatores como obesidade, sedentarismo, idade.
Também entendi que eu não tinha feito nada de errado que pudesse ter levado ao meu diagnóstico.

Passei a prestar atenção a tudo que estivesse relacionado à questão. Insulina, glicosímetro, sensor, alimentação, dietas e mais dietas - a gente tenta se apegar a soluções mais práticas e a alternativas que ajudem no controle, sem dúvida.

Hoje minha visão sobre a condição mudou. Sei que é possível manter um controle do diabetes, que a adesão ao tratamento e o acesso à educação em diabetes são fundamentais e, principalmente, tenho a clareza de saber que não foi minha culpa.

-- Encontrar a mais justa adequação 
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés -- 

Não tem culpa nesse diagnóstico! Mesmo para quem foi diagnosticado com diabetes tipo 2, não tem que haver culpa e julgamento. Sabe-se lá o que a pessoa estava passando e que pode ter desencadeado o diagnóstico.

Hoje li uma história que mexeu comigo. Entre alguns fatos e questões, a afirmação como um tiro: "você ficou doente porque quis".
Essa afirmação me fere de tantas formas que eu nem sei por onde começar...

Por sorte ou por ter pessoas ao meu redor dispostas a entender o que é o diabetes, nunca tive o dissabor de escutar isso de alguém ou de ter dedos apontados para mim despejando essa carga indevida de culpa. Mas, infelizmente, ainda é muito comum que pessoas com diabetes escutem essa acusação seja de médicos, profissionais de saúde ou até de quem está todo dia em casa, dividindo os dias e a vida, uma glicemia que não esteja dentro do adequado ou um episódio de hipoglicemia ou uma insulina que acaba e precisa ser comprada...

Por que é tão difícil acolher? Por que julgar em vez de acolher?
Conviver com uma condição de saúde que requer cuidados a cada segundo, todos os dias, não é fácil, mas é possível. O autocuidado só passar a ser classificado como algo impossível ou inalcançável quando é despejada em cima da pessoa com diabetes essa ignorância toda. Quando falta empatia e suporte, não vai haver insulina que dê jeito.

Levar alguém a acreditar que foi o causador da própria 'doença' (nem gosto de usar essa palavra, mas aqui cabe pela força da situação...) é um absurdo. .

Eu não quis 'ter uma doença'. Querer, eu quero outras coisas!!

Quero viajar, quero estar com a minha família, quero curtir com meus amigos, quero ir ao cinema, quero me dedicar ao meu trabalho, quero tocar tamborim...
...e quero que todas as pessoas que têm a coragem de encarar os diversos resultados de glicemias e as inúmeras aplicações de insulina com o simples objetivo de se manterem vivas sejam respeitadas.

-- E onde pisas o chão, minha alma salta 
E ganha liberdade na amplidão --

Não critique, ajude. Não acuse, dê a mão.

-- E onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão --

A decisão por seguir ou não com o tratamento e com o cuidado diário é de cada um, mas ninguém escolhe ter diabetes!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Uma 'fábrica de vida' na Dinamarca...

Sombra e água fresca!

"Menos Preocupação = Mais Alívio"