Crônicas da menopausa -- Invernagem...
Invernagem: viagem em que navegadores se deslocam para uma região onde o mar congela durante o inverno e ficam 'presos' por lá neste período.
Eu não conhecia esse termo ou esse tipo de viagem. Ouvi sobre isso no episódio Um Grande Silêncio, do podcast Rádio Novelo Apresenta.
Durante a conversa, eles falam sobre diferentes vivências e visões do que é estar sozinho - silêncio, solitude, solidão - e para onde isso nos transporta, seja física ou mentalmente.
O silêncio não é apontado somente como a falta de som ou de barulho; silêncio é apresentado como algo que vem da ou pela falta de tolerância que temos ao 'nada'.
Não falar nada, não produzir nada, não preencher um momento ou um espaço com nada.
De onde vem essa agonia, essa aflição de 'ter que' alguma coisa??
{já falei um pouco sobre isso, com uma abordagem do ter que produzir, ter que fazer: 'Tem que' por que??}
Ouvir sobre esse movimento de parar no tempo me trouxe uma conexão imediata com a menopausa, como se eu estivesse na minha própria invernagem...
Um tempo paralisado, um tempo que impede o movimento.
A falta de energia e disposição, a desconexão com o que e quem eu era antes e que faz o meu tempo parecer diferente.
Um tempo paralisado, um tempo que impede o movimento.
A falta de energia e disposição, a desconexão com o que e quem eu era antes e que faz o meu tempo parecer diferente.
No mesmo episódio, uma fala da Tamara Klink no relato sobre a invernagem que ela experienciou no Ártico, sozinha por 6 meses, me deu uma pontinha de clareza em como seguir essa caminhada: "temos que criar as próprias regras, inventar a nossa própria medida do tempo".
Nessa 'sugestão' da Tamara, consigo um respiro na pressão de que eu preciso me movimentar, me mexer, avançar, não deixar travar.
A sensação de não ter tempo, porque o tempo que sobra eu uso pra gastar o cansaço, é o que mais me incomoda hoje em dia.
Esse cansaço pesa de uma forma que a energia vai embora e me deixa sem vontade de sair, de falar, de interagir.
Esse cansaço pesa de uma forma que a energia vai embora e me deixa sem vontade de sair, de falar, de interagir.
E não se trata de não querer ver ninguém ou de me isolar: ao contrário!
É querer ver, querer estar, querer fazer, mas não conseguir.
É querer ver, querer estar, querer fazer, mas não conseguir.
Confuso, né?
Pois é bem assim que eu fico diariamente, entre o fazer acontecer na marra e a quase certeza de que não vai dar, seja lá o que for.
Em outro papo de podcast (sim tô nessa fase, gente!), dessa vez o Sem Regras / Menopausa sem Tabu, ouvi um termo que me bateu forte: a menopausa engessa a gente gerando uma sensação de falta de "libido pela vida".
Uau!
Alguém conseguiu descrever em três palavras o que às vezes é sentido por aqui.
Não me levem a mal, eu amo a minha vida! Amo minha casa, meu amor, minhas crianças, minha família. Amo estar com meus amigos, amo viajar e planejar novas viagens. Amo escrever.
Mas realmente há um peso mental e corporal que me deixa sem força até pra isso tudo aí que eu amo.
Mas realmente há um peso mental e corporal que me deixa sem força até pra isso tudo aí que eu amo.
Vocês sabiam que lá nos idos de muito antigamente, antes da menopausa ser compreendida como o que é, essa fase chegou a ser apontada como uma causa física de transtorno mental nas mulheres?
Havia uma classificação diretamente ligada à melancolia como consequência...
Seguindo nesse papo com o foco no isolamento em condições que não são consideradas comuns, a Sally Poncet {que também experienciou uma invernagem, junto com o marido, registrada no livro Le Grand Hiver - O Grande Inverno, sem edição em português}, mais uma 'tradução' para invernagem que me leva para o que a menopausa me causa: a invernagem pode ser descrita como um passeio à um lugar para o qual os humanos não foram feitos, mas onde é possível fazer a vida acontecer também.
Pois bem, pra fechar esse desabafo / auto-retrato atual, eu trago um destaque que resume o que eu tenho sentido e vivido entre alterações glicêmicas e terapias hormonais: "essa vida cansa o corpo, ao mesmo tempo em que fortalece".
Sigo daqui, -- perdoem a licença poética na escrita! -- me re-conhecendo, me re-estabelecendo, me re-conectando com quem eu sou.
Um dia de cada vez, colocando os hormônios, mente e corpo no lugar!!
Um dia de cada vez, colocando os hormônios, mente e corpo no lugar!!



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