"A palavra foi feita para dizer"

"Quem escreve deve ter todo o cuidado para a coisa não sair molhada. Quero dizer que a página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias. É como pano lavado que se estira no varal.
(...)
A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso. A palavra foi feita para dizer."

Com esse texto de Graciliano Ramos no livro A Palavra não foi feita para Enfeitar, eu me coloco aqui de peito - e palavras - abertos para agradecer. 

A imagem às vezes fala por si só. 
Ler é escolha; a palavra precisa ser recebida, acolhida. 

E isso é o que eu vejo e recebo aqui todos os dias desde o 21 de dezembro de 2010, com um 'oi' tímido mas cheio de coragem nesse blog que acabava de nascer. 

Se a leitura não tem sido muito o primeiro caminho para descoberta, entretenimento, acolhimento e diversão nesse momento em que o visual acaba sendo a estrela por todos os lados, imagina só quando a leitura é sobre a convivência com uma doença crônica autoimune? 

Esse foi o caminho que eu escolhi, mesmo sem saber se esse refúgio chamado Insulina Portátil faria sentido para alguém, além de mim. 
Na minha cabeça, de nada me adianta saber, aprender, entender se não puder dividir o que eu tenho o privilégio de receber.
O que sou eu senão para o outro? 

Sou da física e da matemática. Da engenharia das coisas, da lógica.
Mas a lógica me traz questões que saem dos números exatos:
- Qual a lógica em não compartilhar o que podemos doar?
- Qual a lógica de avanços na saúde, se não estiver ao alcance de todos?
- Qual a lógica na educação em diabetes, se ela não chegar aos diabéticos?
- Qual a lógica em criar uma ponte se não for para conectar? 

Daí vem o meu agradecimento. 
Porque sem a confiança e as mãos dadas que quem tira um tempinho no seu dia ou na sua semana para vir aqui, ler, comentar, responder, esse blog não tem justificativa. 

Saber dessa rede em movimento é um alento. 
É lembrar todos os dias que eu não estou sozinha nesse mundo da doçura tipo 1. 
Lembrar que apesar do nosso tratamento ser pessoal e intransferível, não há o que pague a cumplicidade da troca entre os saberes e viveres diabéticos. 
Uma hipo, outra hiper, o cansaço, o furo no dedo, a insulina que está acabando, o roxo que ficou depois da aplicação, o sensor com defeito, a expectativa por unicórnios e uma estabilidade glicêmica... 

Ufa! 
É um tanto de coisa todo dia toda hora para todo mundo! 
Mas eu só agradeço por não estar - por nunca ter estado - sozinha. 
 
13 aninhos de um blog adolescente, em fase de crescimento (sempre!) e querendo ser cada vez mais um lugar de cuidado e carinho. 
Que mesmo nos temas mais difíceis, esse mundo paralelo aqui seja de amor e empatia. 

{e nem precisamos carregar sozinhos!}



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