O meu lugar...

Quando eu saí do projeto que trabalhava em 2015, a empresa me ofereceu um daqueles programas de reavaliação de carreira. Eu nem sabia exatamente do que se tratava, mas decidi ver como era e no que aquilo poderia me ajudar.
Já que eu conseguia reconhecer que não me encaixava mais em tudo o que o mundo corporativo me exigia, estava disposta a ouvir quais eram as alternativas.

Na época, apesar de ter decidido não renovar meu contrato depois de 7 anos no projeto (e, ao todo, 16 anos atuando na área), estava cheia de dúvidas. Medo do desconhecido... quem nunca??

Ao longo do processo, uma reavaliação das minhas realizações. Não as das empresas e projetos nos quais eu tinha trabalhado, mas o que EU tinha realizado, executado, criado. Verbos em primeira pessoa: fiz, organizei, coordenei, liderei, desenvolvi.
Podem acreditar: foi muito difícil! Não por não ter feito, organizado, coordenado, liderado ou desenvolvido. Mas por achar que tudo isso era de um monte de gente, e não meu somente.

De fato, trabalhar em equipe torna as coisas todas meio que coletivas mesmo. Gosto disso, de ser parte, de ser junto. Só que para muitas dessas coisas serem parte de um todo, foi preciso que o meu 'eu' tivesse realmente assumido e decidido.

Ter a consciência disso foi libertador!
Não sei porquê lá no fundo eu me sentia egoísta se avaliasse as coisas deste ponto de vista. Precisei, depois de anos de carreira e atuação, ser instigada a valorizar e reconhecer MEUS feitos.
Uma observação: sem deixar de lado quem sempre esteve comigo, apoiando, acreditando, incentivando. Nunca estive sozinha!!

Hoje, completando 10 anos desse Insulina Portátil que tanto me representa, tomei a liberdade de fazer o mesmo exercício. Assim como o diabetes é uma condição com tratamento individualizado e único para cada um, apesar de atuar em conjunto com tantos queridos e queridas que se jogam nessas redes pelo outro, decidi parar e fazer um balanço de tudo que eu fui capaz de realizar e alcançar depois do diagnóstico.

Saí de uma noite pós consulta arrasada e aos prantos. Indo de farmácia em farmácia, sem entender praticamente nada do que estava acontecendo, na busca de insulinas, glicosímetros, agulhas, lancetas... - que nomes eram esses?!
Perdida, em pânico!
Cheguei até aqui, aproximadamente 21.300 injeções e cerca de 4.260 dias convivendo com diagnóstico do DM1, acumulando certificados de Congressos Mundiais de Diabetes, uma Revista, uma Pós-Graduação em Gestão de Saúde, palestras, um livro, inúmeros eventos pelo Brasil e pelo exterior representando pessoas com diabetes.
Quanta coisa eu conquistei... E como agora esse EU tem sido tão importante.

Longe de ser uma pessoa individualista, aprendi a ser confiante e forte (obrigada, Mamy!). Fui criada acreditando que eu poderia alcançar o que quisesse, qualquer que fosse o meu sonho e o meu desejo. Agora, olhando para trás, para aquele 'apagão' momentâneo em março de 2009 depois que ouvi 'é diabetes tipo 1', consigo enxergar que isso foi fundamental para que essa doença não me domasse.
Me tornei protagonista da minha condição. Me capacitei - como paciente, como influenciadora, como cúmplice de tantos iguais. Me motivei. Renasci através das palavras.

Meu Insulina Portátil tem sido ferramenta e ponte. Verdade e lucidez.

O que vocês veem aqui não é a 'blogueira', ‘influenciadora’. 
É a dona do blog. A autora.
Aqui é a Ju. Juliana, Juli, July, July-July, Juju, Juô, Jujubinha, Jujuba, Julés.
É a carioca. 
Engenheira, jornalista.
Escritora, batuqueira.
Viajante.
Diabética.


Meu IP é caminho.
Meu IP é fonte.
Meu IP são as mãos dadas de quem sabe que não está sozinho.
Meu IP são as mãos dadas de quem precisa saber que não está sozinho...

Meu IP faz 10 anos.
Meu IP é feito de glicemias e insulina. Hipo e hiper. Meu IP é feito de amor.
Meu IP é o meu lugar.

Sou eu.
Só porque sei que aí, do outro lado, tenho vocês. Obrigada!



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