Crônicas do Isolamento -- Da licença poética de poder errar...

Não vejo mais as notícias. Sei dos números pelo que os amigos comentam nas redes. 

Quarentena, semana 14, dia 92.
Aqui, reabertura de shoppings, bares, salões e academias. Segundo as autoridades, com o respeito ao distanciamento e tomando as devidas medidas de higiene. 

Entendo e respeito os proprietários e profissionais autônomos à frente dos seus próprios negócios, que devem estar sufocados para se manter diante de um momento tão crítico e inesperado. 
Mas, honestamente, não confio na dita segurança e prontidão nessa reabertura. 

Como as pessoas vão chegar nesses lugares? Como será o controle de entrada e circulação?
Nos primeiros dias de volta ao funcionamento, fotos mostram shoppings lotados, pessoas andando sem o distanciamento adequado e, por mais assustador que pareça, algumas até sem máscaras.

Vendo essas coisas, fico me sentindo absolutamente neurótica. 
Continuo em casa, me cuidado ao máximo. 
Continuo em casa, sem ir ao mercado ou ao parque. 
Continuo em casa, limpando as compras que chegam do mercado.

Os jornais mostram praias movimentadas, ruas cheias e engarrafamento. 
Sério isso? 

- Não aguento mais ficar em casa. 
Nem eu! 
Adoraria poder passar um dia por aí, livre, leve e solta. Mate na praia depois de um mergulho, piquenique no Aterro do Flamengo, uma cervejinha no boteco. Mas como?

O que acontece é que o 'relaxamento' e a reabertura parcial parecem significar que acabou. 
Só que não!!
Enquanto o desgoverno segue desorientado acerca das medidas ideais e desdenhando da importância em proteger seus cidadãos, a pandemia segue desenfreada pelo Brasil. 
Novos caso.. 
Muitos casos. 
Tantos óbitos.
Quanta tristeza.

E, independente da reabertura parcial (!), não vale esquecer que quem é grupo de risco continua sendo grupo de risco. A diferença agora é uma só: com mais gente nas ruas, mais expostos nós estamos. 
Se já era arriscado sair antes dessa reabertura, imagina sair em um momento de maior exposição...

A ansiedade cresce, a glicemia sobe, a insulina trabalha! 
A conta é essa. Tem sido assim.
Faço, em contrapartida, (quase) tudo que me cabe - as atividades físicias continuam esquecidas.
A alimentação vai bem, obrigada. E a monitorização da doçura continua com cada vez mais afinco. 
Renovei o estoque de insumos para os próximos dois meses, dei um alô para a minha Super Endócrino esses dias e vou tentando manter a serenidade e o equilíbrio durante o isolamento.

Fácil não é...
Ver a ignorância superar o cuidado é difícil.
Ver a ignorância se sobrepor à vida, é muito difícil.

Mas, vou em frente, um dia de cada vez. 
Casa, comida e roupa lavada. 
Reunião. E-mail.
A internet que cai. 

Calma. Tudo tem que dar certo.
A nova vida real! 
O tal do novo normal?

Calma?? Tudo tem que dar certo?
Na vida confinada existe uma liberdade - quase uma licença poética - de poder errar.
Se a internet travar
Se a bateria do telefone acabar
Se a TPM chegar 
Se a paciência acabar
Se a reunião atrasar
Se você faltar, até quando estiver lá.

Calma. 
Se cuida. 
Já mediu a sua glicemia hoje?
Calma.
Se cuida. 
Lembra que vai passar!
Resista. 
(R)Exista.

{Ilustração: @artedoluc}





 


 

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