Para quando é preciso ser resistência...

Escuto de muita gente o quanto é bacana e legal a forma como eu me cuido e cuido da minha doçura.
A minha resposta para isso é sempre a mesma: "não é legal não, é que se não for assim, a gente morre".
Entre o tom de brincadeira e o de seriedade, o que digo é a mais pura verdade.

O que me faz buscar o cuidado com o diabetes é a vontade de viver, no sentido pleno e absolutamente literal. A vontade de seguir fazendo as coisas que eu gosto e que me fazem feliz, sem restrições.

Meço, aplico, confiro, conto, calculo... uma vez, duas, três, inúmeras. Todos os dias. Todos!
E sabe por que? Porque é a maneira mais eficaz de alcançar um controle, o mínimo controle que seja.
A 'segurança' por trás de glicosímetro, sensor, agulhas, canetas.

Outra coisa que eu escuto de muita gente é que tenho um jeito leve de ver a vida. Positiva, otimista...
Sim, isso sim! Sempre busco acreditar que as coisas, por mais complicadas ou complexas que sejam, vão se resolver. Que em tudo podemos ter, pelo menos, um aprendizado, um crescimento como ser humano.

Eu agradeço por ter condições de comprar a minha insulina, por poder bancar o meu sensor, a consulta com a minha endócrino. Agradeço por ter acesso a informação confiável e de qualidade. Por saber o que é e ter a oportunidade de vivenciar a educação em diabetes.

O diabetes tipo 1, doença autoimune, chega atropelando. Enquanto a gente está absorvendo o diagnóstico, a gente já está aplicando insulina! Entender o tratamento e a condição ao mesmo tempo... Furar o dedo e contar carboidrato e monitorar a pós-prandial e aplicar a insulina na hora e não esquecer de trocar a lanceta e... e... e.......
Tudo ao mesmo tempo! Daí em diante, não tem intervalo, feriado, férias, descanso.
- Tô de 'altos'!
Não, não está não.

Não estamos. Nunca estamos.
Nem quando a gente acha que está.

E, mesmo assim, mesmo fazendo tudo que pode ser feito, lá vem esse tal DM dar uma rasteira de vez em quando. Como isso é difícil!
Como é difícil sentir uma perda mesmo quando tudo está sendo feito como deve ser.
Como é difícil saber que, mesmo quando a gente faz tudo 'tentando' não falhar, esse tudo pode não ser o suficiente.
Como é difícil sentir a vulnerabilidade do diabetes e ter a 'condição' trazendo a lembrança - aquela que fica escondida lá no fundo - de que, as vezes, a gente não está mesmo no comando.

Saber da perda de uma criança docinha para o diabetes tipo 1 traz uma baita dor.
Este ano já houve outra... jovem, dedicada, engajada...
A causa: uma hipoglicemia severa, assintomática, sem tempo de reação.
Hipoglicemia.
Queda brusca da glicose.
Hipoglicemia, a tão temida hipoglicemia.

Que crueldade. Tão injusto...

Me vejo egoísta, enquanto penso sobre o que aconteceu. Só consigo parar e agradecer por sentir os sintomas da hipoglicemia, até durante o meu sono. Quantas já houveram durante a noite, o dia, no almoço, no meio da tarde. Quantas!
Me vejo solidária também... a quem tem medo, a quem gostaria de sentir os sintomas, por mais desconfortável que eles nos deixem.
Me vejo questionando a burocracia exagerada e falha na dispensação de insumos e insulinas pela rede pública de saúde, em sua maior parte.
Me vejo com raiva do sistema fraco no que se refere a considerar o menor preço e nada mais ao decidir a que tratamento as pessoas com diabetes terão direito.

Será que poderia ser diferente?
Será que poderia ter um melhor controle?
Será que a monitorização contínua é, como muitos apontam, desnecessária?

Só não me digam que avanço e tecnologia é luxo.
Quem (con)vive com o diabetes (sobre)vive através de injeções e monitores.

É preciso falar sobre diabetes.
É preciso lutar pelas pessoas com diabetes.
E é só por isso que, até quando fraquejo e me sinto ameaçada pelo diabetes, eu me sinto mais forte.





Comentários

  1. Te admiro Juliana,vc luta por vc e pelas pessoas que convivem com o diabetes. Insulina Portatil,so esclarece as pessoas . beijos no seu coração,

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    Respostas
    1. Obrigada pelo carinho de sempre, Ro! Beijo grande.

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